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Opinião: "A Vida Mentirosa dos Adultos" de Elena Ferrante

Mais um livro de Elena Ferrante que devoro como se não houvesse amanhã. Não sendo um dos meus favoritos, está lá tudo: a história pungente de uma adolescente, a sua relação com os pais e consigo própria, a descoberta da sexualidade, a incerteza, a história da sua família, tudo bem temperado com a já habitual escrita visceral e crua da autora.

Tem algumas similaridades com a tetralogia da Amiga Genial, principalmente com os dois primeiros livros, que se focam mais na adolescência das protagonistas, mas é um registo diferente, muito mais introspectivo e íntimo, que por vezes choca de tão nú e crú que é. 

Giovanna tem uma infância quase perfeita, com um pai e uma mãe perfeitos aos seus olhos imaculados, mas repente vê-se em plena puberdade, no meio de uma crise familiar, que a catapulta para um mar de dúvidas e incertezas, e que a deixa sem saber como reagir.

“Foi assim que comecei a reagir. Pouco a pouco passei do aturdimento em que deixava correr os dias a observar-me, para a necessidade de me consertar, como se fosse um pedaço de qualquer material de boa qualidade danificado por um operário desastrado. Era eu - fosse eu quem fosse -, e tinha de fazer alguma coisa por aquele rosto, aquele corpo, aqueles pensamentos”.

Gianni é uma miúda conturbada, mas inteligente e destemida, e a mistura pode ser explosiva. Ser adolescente não é fácil. É um período de mudanças e indecisões, muitas vezes dolorosas, que podem deixar marcas muito profundas. E esta foi uma história que não desiludiu. Gostei de acompanhar Giovanna neste seu percurso e acreditar que chegou sã e salva à idade adulta. Apesar de ter gostado imenso desta leitura, não me senti arrebatada como com os outros livros. Mas é uma leitura a não perder. Sem dúvida.

P.S. O título é perfeito. A vida mentirosa dos adultos é o que a jovem Giovanna descobre ao crescer.

Opinião: "História da Menina Perdida" de Elena Ferrante (A Amiga Genial - Quarto Volume)

E cheguei finalmente ao fim desta maravilhosa tetralogia "Amiga Genial". E fica no ar a pergunta, qual delas afinal era a amiga genial? Lenú (Elena Grecco) ou Lila (Raffaella Cerullo, também conhecida por Lina)?

Para mim, a resposta só pode ser uma: Lenù. Para ser a Lila teríamos de acrescentar algumas palavras - a amiga genialmente má. A relação de quase dependência de Lenù por Lila começa no momento em que juntas, por insistência de Lila, subiram as escadas do prédio do Don Achille para irem tentar recuperar as as bonecas. A meio das escadas, Lenù está completamente fascinada com a determinação e coragem de Lila, e quando ela lhe dá a mão, sente que tem ali uma amizade para a vida. 

O que Lenù nunca se apercebe, ou talvez o faça tarde demais, é que Lila lhe suga a vida. Quando acha que junto da amiga é que a sua genialidade se revela, ao passo que longe dela não passa de medíocre, o que acontece é completamente diferente. Lila deita-a abaixo, corrói os seus alicerces, desfaz os seus castelos de areia. 

Neste último livro Lenù e Lina são ambas adultas, com maridos, amantes, filhos e pais envelhecidos. Ambas vivem no bairro onde nasceram e chegam até a viver no mesmo prédio. Os acontecimentos que surgem nas suas vidas neste livro são perturbadores, e o facto de um ou outro ficar sem resposta tornam-nos ainda mais.

Fico com saudades de acompanhar estas vidas. Dá-me vontade de dar um salto até Nápoles, e visitar cada lugar onde elas poderão ter estado. Sim. No meu intimo eu sei que existiram. De alguma forma, existiram e viveram ali. É sempre um adeus difícil, mas esta autora fá-lo ainda mais complicado para o leitor.

Adorei a saga Napolitana - Amiga Genial. Recomendo, sem hesitações. Deixem-se levar pela história e vejam até onde a história vos leva. Nem vão acreditar.

Opinião: "História de Quem Vai e de Quem Fica" de Elena Ferrante (A Amiga Genial - Terceiro Volume)

Eis o terceiro livro da tetralogia Amiga Genial. Li-o num ápice nos primeiros dias de Janeiro. A escrita de Elena Ferrante tornou-se num vício. Só quero ler mais e mais dela. Não me interessa se é desconhecida, anónima, ou heterónimo de alguém. Tem é de continuar a escrever para nós lermos. Não concordam?

Neste livro, como o nome bem indica, continuamos a acompanhar as duas amigas Lenù e Lila, sendo que uma saiu de Nápoles e a outra ficou. Lila deixou entretanto o marido e trabalha numa fábrica de enchidos, em condições bastante precárias. Lenù por seu lado, termina o seu percurso estudantil na Normale de Pisa (universidade) e publica o seu primeiro romance, que lhe abre as portas para um mundo novo, pleno de artes e cultura. 

A sua amizade é repetidamente posta à prova. E nós, leitores, que já conhecemos os contornos mal definidos da mesma, ficamos na dúvida sobre qual delas será a amiga genial, se haverá realmente uma amizade ou apenas uma relação de dependência.

Lenù, em busca de temas para novos livros, imiscui-se em grupos de movimentos feministas, participa em comícios e até se vê envolvida em situações mais arriscadas. Fascinada por toda essa nova cultura ela reencontra uma antiga paixão - Nino Sarratore. Entretanto, Lila continua numa espiral descendente e acaba por ter de se apoiar na amiga para regressar à vida.

Uma vez mais tendo como pano de fundo uma Itália em polvorosa - os loucos anos 60 / 70 politicamente tensos e perigosos - a autora continua a história desta estranha amizade entre duas mulheres. Uma leitura que só consigo definir como visceral. Não há como não continuar a ler. Que venha o próximo.

Opinião: "História do Novo Nome" de Elena Ferrante (A Amiga Genial - Segundo Volume)

"A Amiga Genial" apresentou ao mundo as inesquecíveis Lenù e Lila, e é na sua amizade que encontramos a pedra basilar desta tetralogia napolitana. "História do Novo Nome" é o segundo livro. Nele descobrimos a sua evolução das duas amigas, de adolescentes para jovens adultas. Lila, já casada com um comerciante do bairro com ligações à Mafia, e Lenù a continuar a sua viagem nos estudos, descobrindo-se para além dos contornos do bairro onde nasceu e sempre viveu.

O fascinante neste livro, que não consigo dissociar do anterior, é que nós lemos o que nos parece ser uma novela diária, minuciosa, sobre a vida daquele grupo de pessoas de um bairro pobre de Nápoles. E ficamos espantados como continuamos a ler e a querer ler mais. É talvez esse o grande fascínio sobre a autora. O poder que detém sobre quem a lê. 

Na realidade, quando nos afastamos ligeiramente da trama, e olhamos a história friamente, apercebemo-nos que afinal o livro é muito mais do que uma simples "novela". É uma análise aos tempos conturbados vividos em Itália, num bairro triste e pobre em Nápoles, nos finais do século XX. É a luta entre classes. Entre grupos neofascistas e a Mafia. E no meio de tudo isso, a autora apresenta-nos duas raparigas, produtos daquele lugar, daquela época, e a história da sua estranha amizade.

Este segundo livro especialmente, leva-nos a lugares escuros, a sítios inomináveis onde uma alma se pode afogar. É tão rico! Amor e ódio, amizade e traição, casamento, adultério, abuso, suicídio... E constante, a amizade entre as duas que também tem contornos estranhos e difíceis de aceitar.

Continuo a leitura passando de imediato para o próximo livro. Não dá para parar. 
Sim. É assim tão bom.

Opinião: "A Amiga Genial" de Elena Ferrante (A Amiga Genial - Primeiro Volume)

Demorei muito tempo a começar esta leitura. Primeiro, desconfiei do rebuliço à volta da autora. Deixei passar a euforia, toda a gente tinha algo a dizer sobre esta tetralogia. Ao fim de uns tempos, comecei finalmente a comprar os livros. Quando os tinha todos na estante, hesitei, com medo de me desiludir. E enfim, cinco após a publicação do primeiro livro em Portugal, finalmente leio A Amiga Genial.

Mistério à parte (acho que ainda não se tem a certeza absoluta de quem é Elena Ferrante), não há dúvida que a sua escrita é viciante. Talvez seja essa a verdade por trás do mistério, já que a própria o disse por diversas vezes, a ausência (não o anonimato) existe para que os textos tenham a supremacia sobre tudo o resto.

Tudo começa quando o filho de Lila, Rino, liga a Lenù e diz-lhe que a sua amiga, de há já sessenta anos, desapareceu. E Lenù começa a contar-nos a história da sua amizade. 

Lenù e Lila são duas meninas, residentes num dos bairros pobres de Nápoles, que se conhecem na Escola Primária. Lila é inteligente, sagaz, corajosa e determinada. Lenù admira-a, inveja-a, quer ser como ela. E o livro aborda basicamente isto, uma amizade que começa na infância e se estende para a adolescência. Por vezes soa quase como uma telenovela. Mas na realidade acaba por ser muito mais. 

Não só descreve na perfeição o que a amizade no feminino, com todas as suas dores e mágoas, dificuldades e vitórias, como sub-repticiamente, a autora vai-nos revelando coisas sobre o bairro, sobre a vida naquela altura, naquele local. Como é ser parte de um bairro daqueles, em que todos se conhecem e há ódios antigos que condicionam a vida. Sem darmos por isso, vamos decompondo a história de um povo, de uma nação. 

As personagens são tão reais, tão bem construídas, que quase conseguimos visualizá-las. Lenú e Lila são tão diferentes como duas gotas de água, no entanto, compõem-se, completam-se. Nem sei qual delas é a amiga genial. A sua amizade é realmente o mote de todo o livro, e leva-nos a imensas interrogações e até a recordações da nossa própria infância..

Todo o burburinho à volta destes livros parece-me merecido. Esta leitura não desiludiu e que venha o próximo: A História do Novo Nome.