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Opinião: "Três Mulheres no Beiral" de Susana Piedade

Foi o primeiro contacto que tive com a escrita desta autora, e posso desde já acrescentar que muito me agradou, pelo que nos próximos tempos deverão ver este nome repetido aqui no blog.

A história reflecte a triste realidade dos nossos dias: a exacerbada especulação imobiliária nos bairros típicos das nossas cidades, neste caso, da cidade do Porto, e até onde estão dispostos a ir, esses especuladores, cujo dinheiro é o único objetivo.

A autora aborda o caso de uma família, levando-nos a pensar nas relações familiares que tantas vezes se vão deteriorando com o passar dos anos, consequência de situações mal resolvidas, equívocos, mágoas. O afastamento natural dos membros de uma família tem de ser contrariado. É preciso ser pro-ativo. É a única solução para que os laços não se desfaçam. 

E depois, como consequência dos dois temas acima descritos, a autora aborda igualmente a solução final para a grande maioria dos velhos portugueses: os lares. Os maus e os menos maus, porque para aqueles que para lá se mudam, raramente são bons. É infelizmente uma triste realidade. O que fazer com os nossos idosos? Como lhe providenciar os melhores cuidados? Com um trabalho que não podemos abandonar, e com escassos trocos de reforma, como pensar sequer noutra solução? É triste, muito triste esta realidade portuguesa.

Com uma escrita delicada e com uma construção de personagens extraordinária, "Três Mulheres no Beiral" é um livro que nos faz pensar e sentir sobre, ao fim e ao cabo, o significado de uma vida. O que resta, quando ela termina. O que fica, depois do adeus. Gostei imenso. Tenho de ler mais livros desta autora. 

"O Teu Rosto Será o Último" de João Ricardo Pedro


Uma das coisas que mais me fascina nos livros que leio é a forma como cada autor escreve. As impressões digitais que deixa no texto, o seu cunho pessoal que fica a pairar em redor de nós, à medida que vamos desbravando a história.
E é sempre muito mais saboroso quando tenho a oportunidade de o encontrar num texto genuinamente português.

João Ricardo Pedro é sem dúvida um autor a seguir de perto. Neste seu romance de estreia deixou-me de água na boca, e espero poder desfolhá-lo novamente, muito em breve.

A história que circunda uma família desde o tempo do Estado Novo, está organizada de uma forma algo estranha. Original sem dúvida. Interessante, talvez. Ficará ao vosso critério.
Tudo começa bem no primeiro capítulo. Mergulhamos na narrativa e deixamos a história infiltrar-se em nós. Depois, subitamente no segundo capítulo, algo estranho se passou. Será que isto afinal são contos? perguntei a mim própria. A resposta rapidamente se me assomou aos olhos. Não. Seriam talvez histórias independentes com os diversos membros daquela família. Histórias que mais tarde ou mais cedo se vão interligar, dando origem a uma bela e original manta de retalhos.

Mas, como disse no início, é a maneira como João Ricardo Pedro escreve que me arrebatou: por vezes crú, muitas vezes rude, mas maioritariamente com o desvelo de um poeta.
Deixo aqui um pequeno extrato, um exemplo de como a simplicidade na escrita é também ela uma forma de arte. E num pequeno parágrafo se descreve uma vida.

«E foi nesse preciso instante que o doutor Augusto Mendes reparou, pela primeira vez, nos olhos escuros daquela mulher, nos músculos dos braços que revolviam a terra e esfolavam os bichos e teciam os dias com uma paciência de sábios. E, a seguir, reparou nos dedos. Nos lábios. Nas ancas. E nunca mais a tratou por rapariga. Dali em diante, seria sempre Laura. A minha Laura. Laura, amanhã vamos ao Fundão e compras lá um vestido. Laura, não sejas tonta. Laura, acho que devíamos casar-nos. Laura, é um menino. Laura, vamos chamar-lhe António. Laura, temos o cão do Celestino, morto e esfolado, em cima da nossa cama. Laura, amanhã vou levá-lo ao seminário em Alcains. Laura, que disparate. Laura, só lhe custam os primeiros dias. Laura, os padres adoram-no, dizem que é muito bom na música e no latim. Laura, claro que se agarra às tuas pernas a chorar. Laura, claro que acorda à noite aos gritos a chamar pela mãe. Laura, o nosso António vai para Angola. Laura, o nosso António vai casar-se. Laura, a nossa nora parece ser boa rapariga. Laura, vamos ter um netinho. Laura, o nosso netinho vai chamar-se Duarte. Laura, o nosso Duarte. Laura, o nosso Duarte Miguel. Laura, o nosso António não me parece nada bem. Laura, o nosso António. Laura, o nosso António. Laura, Laura, Laura. Três vezes.» 

Em destaque: "O Teu Rosto Será o Último" de João Ricardo Pedro

Prémio LeYa 2011


Sinopse:
Tudo começa com um homem saindo de casa, armado, numa madrugada fria. Mas do que o move só saberemos quase no fim, por uma carta escrita de outro continente. Ou talvez nem aí. Parece, afinal, mais importante a história do doutor Augusto Mendes, o médico que o tratou quarenta anos antes, quando lho levaram ao consultório muito ferido. Ou do seu filho António, que fez duas comissões em África e conheceu a madrinha de guerra numa livraria. Ou mesmo do neto, Duarte, que um dia andou de bicicleta todo nu. 
Através de episódios aparentemente autónomos - e tendo como ponto de partida a Revolução de 1974 -, este romance constrói a história de uma família marcada pelos longos anos de ditadura, pela repressão política, pela guerra colonial. 
Duarte, cuja infância se desenrola já sob os auspícios de Abril, cresce envolto nessas memórias alheias - muitas vezes traumáticas, muitas vezes obscuras - que formam uma espécie de trama onde um qualquer segredo se esconde. Dotado de enorme talento, pianista precoce e prodigioso, afigura-se como o elemento capaz de suscitar todas as esperanças. Mas terá a sua arte essa capacidade redentora, ou revelar-se-á, ela própria, lugar propício a novos e inesperados conflitos?



Primeiras páginas aqui.


Sobre o autor:
João Ricardo Pedro nasceu em 1973, na Reboleira, Amadora. Curioso acerca da força de Lorentz, licenciou-se em Engenharia Eletrotécnica pelo Instituto Superior Técnico. Durante mais de uma década, trabalhou em telecomunicações sem, no entanto, alguma vez ter aplicado as admiráveis equações de Maxwell. Na primavera de 2009, em consequência do carácter caprichoso dos mercados, achou-se com mais tempo do que aquele de que necessitava para cumprir as obrigações do quotidiano. Num acesso de pragmatismo, começou a escrever. 
O Teu Rosto Será o Último é o seu romance de estreia.