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"A Holandesa" de Ellen Keith (OPINIÃO)

Por vezes preciso deixar passar alguns dias entre o terminar uma leitura e escrever a opinião sobre ela. É que há livros cuja história temos de deixar assentar em nós. Interiorizá-la. Compreendê-la. Para depois conseguirmos falar sobre a experiência de leitura conscientemente.

Por acaso comecei a escrever a opinião sobre este livro na semana passada, mas decidi deixar passar mais alguns dias para a publicar. E ainda bem que o fiz. É que no sábado, exatamente na Feira do Livro de Lisboa, ao pegar num exemplar deste livro para falar dele à amiga que estava comigo, fez-se luz. E acreditem, tive de ir rescrever partes desta opinião assim que cheguei a casa.

O livro divide-se em duas histórias:
Uma, em plena II Guerra Mundial, aborda a história de uma jovem holandesa, casada, que por pertencer à resistência é apanhada pelos nazis e enviada para um campo de concentração. Buchenwald não era um campo denominado de extermínio, mas, sim, de trabalhos forçados e de experiências médicas (experiências para testar vacinas e para reconverter os homossexuais). Neste campo, para além dos habituais bordéis dos nazis, havia igualmente um bordel para utilização dos prisioneiros de guerra que mais colaborassem.
Marijke, pela sua beleza, é escolhida para esse serviço. Lá, acaba por conhecer um alemão, de alta patente, que lhe facilita um pouco a vida e por quem ela sente algo mais do que deveria, deixando-a em luta consigo própria. Grande parte do livro aborda esta época histórica, quer através das palavras de Marijke (na Holanda), quer através de Karl (na Alemanha).

Quarto de bordel em Buchenwald
A outra parte do livro, que intercala a primeira história a cada dois ou três capítulos, é a de um jovem homossexual argentino, Luciano, que em 1977 se torna num dos muitos "desaparecidos" da Guerra Suja da Argentina. Luciano foi raptado e aprisionado por militares ligados à ditadura militar Argentina (1976-1983) e o seu relato sobre as torturas e condições dos prisioneiros é absolutamente terrível. A sua história é pontuada por cartas mentais que ele escreve ao pai, Arturo Wagner, com quem nunca consegui estabelecer uma relação saudável e a quem, agora, questiona porquê.

A história de Marijke é apaixonante, e felizmente ocupa 2/3 do livro, isto porque a história de Luciano não me conquistou por aí além. Tive de conter a tentação de passar essas páginas à frente, pois as descrições das torturas eram demasiado vívidas para o meu gosto. Não que as do Holocausto não fossem... mas talvez já esteja mais habituada a lê-las, tantos são os livros com esse tema. Para além disso, passei o tempo todo a tentar perceber a ligação entre as duas histórias. Só no fim, e alguns dias depois, é que lá cheguei. Tive de reler algumas passagens, e finalmente tudo fez sentido.

As chamadas Mães da Praça de Maio a reivindicarem notícias sobre os
30.000 desaparecidos na Argentina entre 1976 e 1983. 
Foi um livro muito interessante. Aprendi algumas coisas que não sabia, incluindo sobre a Guerra Suja da Argentina. E gostei da escrita de Ellen Keith - descomplicada e direta. Recomendo.

Em destaque: "A Holandesa" de Ellen Keith

Em tempos de guerra somos capazes de tudo.

Sinopse:
Amesterdão, maio de 1943. Ao mesmo tempo que as túlipas florescem, os nazis intensificam a opressão à cidade ocupada e os últimos sinais da resistência holandesa vão sendo eliminados. Marijke de Graaf e o marido são detidos e deportados separadamente para campos de concentração na Alemanha. Em Buchenwald, Marijke é confrontada com uma escolha impiedosa: sujeitar-se aos cruéis trabalhos forçados impostos aos prisioneiros ou, numa tentativa de sobrevivência, tornar-se prostituta no bordel do campo.

Do outro lado do arame farpado, Karl Müller, oficial das SS, espera alcançar a glória militar que o seu pai acalenta. Porém, o encontro com Marijke muda radicalmente o seu destino.

Buenos Aires, 1977. Está-se em plena Guerra Suja, num cenário de repressão implacável sobre os dissidentes do regime que vigora então na Argentina. Luciano Wagner está detido numa cela, sem esperança de algum dia escapar ao cativeiro político.

Da Holanda à Alemanha, até à Argentina, a Holandesa é um romance soberbo que narra a história de três pessoas que partilham um segredo sombrio e que faz um relato impressionante de dois dos regimes mais violentos e repressivos da história moderna.

Um livro que fala de amor, da ténue linha entre o bem e o mal, e da resiliência de pessoas comuns para perseverarem e fazerem o impensável em circunstâncias insólitas.

Sobre a autora:
Ellen Keith é uma escritora canadiana, vencedora do prémio HarperCollins UBC para Melhor Obra de Estreia na categoria de Ficção. Obteve recentemente o mestrado em Escrita Criativa pela Universidade da Colúmbia Britânica. Passa grande parte do tempo no estrangeiro, a viajar sobretudo pela América do Sul. Atualmente, vive em Amesterdão.