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Opinião: "Conduz o Teu Arado Sobre os Ossos dos Mortos" de Olga Tokarczuk

Esta é mais uma leitura para a minha lista de autoras às quais foram atribuídos o Prémio Nobel da Literatura. 

Olga Tokarczuk é uma escritora polaca nascida em janeiro de 1962, que ganhou o Nobel da Literatura de 2018. Para além deste, ela é detentora de outros grandes prémios, sendo reconhecida como uma das escritoras europeias da atualidade. É uma autora cujas obras incidem frequentemente em temas como a insignificância humana, a exaltação da Natureza e a defesa do irracionalismo.

Neste livro, Conduz o Teu Arado Sobre os Ossos dos Mortos, ela une os seus dois temas centrais, a exaltação da Natureza e a insignificância humana, transformando uma leitura aparentemente inócua num negro e interessante policial.

Para além da sua escrita fabulosa, tão contundente e viciante, ela constrói a história com base na personagem principal, Janina, uma mulher de meia-idade que mora perto da fronteira com a Chéquia. Janina é uma excêntrica solitária, que toma conta das casas de férias dos que só vêm no Verão. Ela é obcecada por Astrologia, e acérrima defensora dos Animais. Dá alcunhas aos seus vizinhos e habitantes da vila mais próxima, com quem mantém o contacto necessário. 

Quando um dos seus vizinhos mais próximos é encontrado morto, Janina acaba por ajudar um outro vizinho a vestir o corpo antes de chamar as autoridades. Até aí nada de especial. Só que nas semanas seguintes, mais homens acabam por aparecer mortos, deixando a polícia sem explicações. Nessa altura Janina chega-se à frente, afirmando que esses homens, todos caçadores desportivos, estão a ser mortos pelo próprios animais, como forma de vingança. Apesar de a considerarem louca, a verdade é que ela e os seus amigos é que acabam por solucionar os assassínios. A resposta, no entanto, não é a que se espera.

Uma leitura extraordinária, que me leva a querer ler mais obras desta autora. Recomendo.

Podem ler a sinopse completa, e até adquirir o livro no site da Wook » aqui.

Opinião: "O Tesouro" de Selma Lagerlöf

Naquelas conversas entre livrólicos, retive o nome de um livro que, apesar de antigo, diziam-no extraordinário.
Trata-se de O Tesouro de Selma Lagerlöf, publicado originalmente em 1904, ou seja, há 120 anos.

Mas antes de falarmos sobre o livro, falemos sobre a sua autora. Quem foi Selma Lagerlöf?
Nada mais, nada menos do que a primeira mulher a ganhar o Nobel da Literatura em 1909. Escolha que foi envolta em alguma polémica pois o seu estilo era, considerado por muitos, demasiado vanguardista para a época.

Da sua obra diz-se foi inspirada nas lendas e histórias de encantar suecas, e julgo ter sentido essa mesma influência neste livro que li.

"O Tesouro" é sem dúvida uma obra notável. Uma pequena pérola da literatura que se lê num ápice e nos deixa enfeitiçados. 

Trata-se de um conto fantasmagórico, pleno de intriga e suspense, que prende o leitor à narrativa. É a história de um amor ameaçado pela moral e por um fantasma que exige vingança. Julgo que os críticos da autora tinham razão, o seu estilo de escrita era vanguardista para a época, já que nesta nossa época, esse estilo é bem atual.

Foi o livro de despedida deste meu ano literário de 2023. Uma excelente leitura que recomendo sem hesitações.

Podem ver a sinopse do livro na página do mesmo no site da Penguin Random House Grupo Editorial
https://www.penguinlivros.pt/loja/cavalo-de-ferro/livro/o-tesouro-2/

Opinião: "Sempre Vivemos no Castelo" de Shirley Jackson

Shirley Jackson foi uma influente autora norte-americana, conhecida pelas suas obras de horror e mistério. Dando continuidade à tradição do gótico americano, iniciado com Poe, as suas histórias inspiraram grandes escritores como Stephen King, Neil Gaiman, ou JOanne Harris.

O culto do sinistro, do mórbido e do patológico, levaram algumas das suas obras até ao grande écran, como por exemplo, A Mansão ou  A Maldição de Hill House, que mais recentemente foi novamente adaptada para o pequeno écran pela Netflix.

Entrei nesta leitura com imensa curiosidade, e na verdade, encontrei exatamente aquilo que fui à procura.

A história é-nos contada pela voz de uma adolescente, meio ingénua para a idade, que nos vai relatando o seu dia-a-dia. Logo desde o início percebemos que há algo estranho no ar, e essa sensação de inquietude não nos larga nunca. Merrycat (Mary Catherine) é uma jovem algo mística, que talvez tenha sido a forma que ela encontrou para fugir da realidade que a rodeia.

O mistério por trás da família Blackwood só nos é revelado mais à frente na narrativa, mas desde cedo percebemos que os remanescentes membros da família são considerados non-gratae pelos restantes habitantes daquele vilarejo. O que aconteceu leva a que ninguém se queira aproximar daquela casa, pelo que quando um horrível acidente acontece, ao invés de tentar ajudar, ainda pioram a situação.

Não posso revelar nada sobre a história, pelo que apenas vos quero deixar com uma impressão, a de que a  autora é uma magnífica contadora de histórias de terror. Com meia dúzia de linhas lidas, já sentimos os cabelos da nuca arrepiados, ficamos inquietos, mas cativados o suficiente para continuar a leitura.

Não me importava nada de ver mais séries de horror inspiradas nas histórias desta senhora!

Em destaque: "Sempre Vivemos no Castelo" de Shirley Jackson

Sinopse:

Considerado pela crítica uma das obras-primas da literatura norte-americana, Sempre Vivemos no Castelo narra a história da extravagante família Blackwood — ou do que dela restou, após a morte por envenenamento de quase todos os seus elementos à mesa de jantar. 

Constance, uma das filhas, é ilibada do crime, passando a viver isolada na grande casa da família, longe da hostilidade dos habitantes da cidade. Com ela vivem o seu tio inválido, o gato Jonas e a sua irmã, Merricat, uma adolescente ingénua e invulgar que acredita em lobisomens, no poder dos objectos e em palavras mágicas, e que tudo fará para preservar este pequeno e estranho mundo. 

Essa frágil harmonia, contudo, é subitamente rompida com a chegada do primo Charles. Na sua presença, os terríveis acontecimentos do passado voltarão para assombrar os Blackwood, revelando a sua verdadeira face.

Os elogios da crítica:

«Uma mestre maior do terror e do suspense.» The New York Times Book Review

«Shirley Jackson é uma escritora inimitável cujas palavras permanecem connosco durante muito tempo.» Joyce Carol Oates

«Shirley Jackson era uma escritora incrível… Se nunca leram Sempre Vivemos no Castelo ou A Maldição de Hill House, estão a perder uma coisa maravilhosa.» Neil Gaiman

«Shirley Jackson é ímpar na criação de tremores silenciosos, crescentes e excecionalmente bem escritos.» Dorothy Parker

Sobre a autora:

Shirley Jackson (1916–1965) é considerada uma das mais influentes escritoras norte-americanas. Herdeira da grande tradição do gótico americano, iniciada com Edgar Allan Poe, teve uma vida curta, deixando, porém, uma obra que a consolidou como uma das grandes personalidades literárias do século xx. Obteve imediato êxito e fama com a publicação, em 1948, do conto A Lotaria, que, à época, dividiu opiniões e suscitou acesas polémicas. Ao todo, escreveu cinquenta e cinco contos; da sua obra, destacam-se ainda as crónicas familiares Life Among the Savages e Raising Demons, bem como os romances O Homem da Forca, A Maldição de Hill House, adaptado várias vezes para cinema e televisão, e Sempre Vivemos no Castelo.


Opinião: "A Porta" de Magda Szabó

Este foi o livro sugerido para o mês de junho no meu clube de leitura. Gosto de ser desafiada para ler coisas que provavelmente não me chegaria às mãos. Foi exatamente o caso. Por isso é que é tão interessante fazermos parte de um grupo com pessoas de diferentes gostos literários, que partilham opiniões, sugerem leituras e comungam da mesma paixão pelos livros. Neste caso bem haja à Tânia Figueira, por nos ter sugerido este belo livro.

Não conhecia a autora, Magda Szabó, mas tão cedo não irei esquecê-la. Faleceu em 2007 e foi uma importante escritora húngara e uma das vozes mais importantes da Literatura europeia do século XX. Em 1948 publicou dois livros de poesia, mas a seguir, por razões políticas, a censura não lhe permitiu publicar mais nenhuma obra. Mais tarde, em 1958 conseguiu voltar à cena literária, e publicou romances, género em que ficou conhecida. 

O mais famoso desses romances é A Porta, o livro que agora vos trago.

O que faz um grande escritor ou uma grande obra, perguntamo-nos tantas vezes, sem nunca conseguir responder concretamente à pergunta. Este livro é um bom exemplo para iniciar uma discussão sobre esta questão. Como é possível um livro com uma história tão banal, tão estranha, tão simples, se revelar uma obra tão monumental? Não sei responder. E aposto que vocês também não. É o segredo de um bom escritor.

Com um tom algo intimista, quase confessional, a autora conta-nos a história de duas mulheres húngaras que desenvolvem uma estranha amizade nos anos do pós-guerra. Uma delas é Magda, uma jovem escritora, e a outra a sua empregada Emerence. 

A grande protagonista da história é Emerence, uma das personagens mais estranhas e enigmáticas com quem me cruzei. Longe de se revelar a camponesa analfabeta que na realidade é, Emerence demonstra ter uma nobreza de espírito e um altruísmo nada convencional. Todo o seu comportamento é levado ao extremo, quer para o bem, quer para o mal. A relação entre as duas mulheres é algo que ultrapassa a lógica da amizade, mas que nos leva a refletir.

Acredito que algures, entrelinhas, a autora nos está a contar uma outra história. Uma história mais crua e triste, sobre a sua própria experiência com a política do seu país. Talvez por essa razão A Porta se tenha tornado num dos seus mais importantes romances.

Recomendo. Foi uma leitura surpreendente. 

Mais informações aqui.