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"Revolução Paraíso" de Paulo M. Morais (Opinião)

Nascido no início dos anos 70, não sei se Paulo M. Morais será, tal como eu, um aficionado desses tempos de ditadura e dos anos que se lhe seguiram. O que sei é que esse fascínio por uma época que não vivi, mas da qual senti os efeitos secundários, me inclinam para livros como este, onde os tempos conturbados do pós-revolução são esmiuçados e não é raro eu encontrar algo que sentia perdido, por não ter nascido uma geração mais cedo.
Esta foi sem dúvida a primeira razão que me levou a querer ler este livro. A segunda encontrei-a logo nas primeiras linhas...

«Quem não os conhecesse e os visse passearem de braço dado pela imundície das ruas dos bares do Cais do Sodré poderia pensar, mesmo sem vislumbrar ares efeminados, que aquele par de velhos janotas andava amantizado. E talvez tivesse alguma razão, pois Adamantino Teopisto e César Precatado, em boa verdade, dedicavam-se a cultivar os mesmos amores. Quando passavam pela grande praça ao largo da estação de comboios, os dois amigos tinham o hábito de saudar a estátua do Duque da Ribeira.»

Uma verdadeira delícia de escrita, não concordam?
É assim todo o livro. Com trejeitos repenicados e um humor bastante rebuscado, a narrativa prossegue mantendo o leitor preso pelo fio condutor que é a amizade entre os dois principais protagonistas.
Uma leitura fascinante que não só nos entretém  como nos vai ensinando um pouco mais sobre como o povo português reagiu às mudanças do pós-revolução.

Denotando-se um excelente trabalho de pesquisa, como se esperaria de um jornalista, este livro encheu-me as medidas e espero reencontrar Paulo M. Morais numa nova publicação muito em breve!
Recomendo.

Para mais informações sobre este livro espreitem aqui ou visitem a página do mesmo no site da Porto Editora » aqui.

Em destaque: "Revolução Paraíso" de Paulo M. Morais


Liberdade e revolta no pós-25 de abril
Revolução Paraíso é o romance de estreia de Paulo M. Morais
Todos os anos, a Porto Editora recebe milhares de originais, de autores em busca de uma primeira publicação. Em 2012, depois de vários anos a escrever para a gaveta, o jornalista Paulo M. Morais foi um dos que procuraram uma oportunidade. Em 2013, a 18 de abril, e depois das inerentes alegrias prévias, chega o momento aguardado: o romance Revolução Paraíso, uma obra sobre a liberdade e a revolta no pós-25 de abril, fica disponível nas livrarias, com chancela da Porto Editora.
A aposta neste novo autor português deu-se em função da qualidade e da pertinência da escrita de Paulo M. Morais. Alternando realidade e ficção, este é romance que transporta o leitor para os agitados dias da pós-revolução: o retrato de um país que, entre o PREC e as eleições livres, procura um novo rumo.

Sinopse:
Enquanto nas ruas se decide o futuro de um país, na tipografia de Adamantino Teopisto vive-se um misto de enredo queirosiano, suspense de um policial e ternura de uma novela: com sabotagens, amores proibidos e cabeças a prémio; tudo num ambiente de revolução apaixonado. O rebuliço generalizado tem repercussões no alinhamento do jornal e no dia a dia das gentes de São Paulo e do Cais do Sodré. A revolução é o tópico das conversas nas tascas, nas ruas, no prédio da Gazela Atlântica, contribuindo para o exacerbar das tensões latentes entre o patrão Adamantino e os funcionários. A vivacidade de uma estagiária, as manigâncias de um ex-PIDE foragido, os comentários de um taberneiro e as intromissões de um proxeneta e de uma prostituta agravam ainda mais a desordem ameaçadora que paira no ar. Nada foi igual na vida dos portugueses após a Revolução dos Cravos. Nada foi igual na vida da “família” Gazela Atlântica após o 25 de Abril.

Sobre o autor:
Paulo M. Morais, nascido em 1972, cresceu nos arredores de Lisboa entre jogatanas de futebol, livros de aventuras e matinés de filmes clássicos. Licenciado em Jornalismo, trabalha em imprensa e multimédia. Fez crítica de cinema; especializou-se em gastronomia e viagens. Em 2006, de mochila às costas, deu a volta ao mundo. Nos últimos anos, além de escrever ficção, tem-se dedicado a conhecer e a divulgar o arquipélago dos Açores. Tem uma filha e já plantou um pessegueiro em Trás-os-Montes. Revolução Paraíso é o seu primeiro romance publicado


Excerto:
«Adamantino Teopisto e César Precatado adoravam-se e odiavam-se como só acontece nas amizades extraordinárias. Facilmente evoluíam do elogio à injúria, do gracejo ao amuo, do companheirismo ao distanciamento. Mas, no fim, havia sempre um retorno como se as suas almas e existências terrenas fossem inseparáveis. Vinha de Moçambique a instituição, fácil e veloz, daquela intimidade enlaçada por referências e citações retiradas das obras de Eça de Queiroz. A camaradagem entre os dois chegava a ofender quem ocupava o mesmo espaço; eles consideravam-se de uma dimensão superior, com direito de admissão reservado apenas
aos detentores da senha. Mas se havia realmente senha, mais ninguém a conhecia. Frequentemente, as conversas entre Adamantino e César acabavam em brindes e exultações, assinaladas com gritos de «hurra!», face à conivência de ideias e à partilha de crenças. Igualmente casmurros, também prodigalizavam em arrelias. Ao encontrarem um assunto separatista, entrincheiravam-se em frentes de batalha opostas. A primeira fase da ofensiva costumava ser cavalheiresca, por apreciarem o confronto ideológico feito com as armas da
argumentação. Porém, o debate honrado facilmente descambava numa guerra desenfreada, onde os excessos de linguagem eram arremessados como obuses. Adamantino, mais fervoroso, enfurecia-se com a aparente calma de César; o revisor raramente desatava a expressão estática do rosto. Mas qualquer um deles, ao seu estilo, era capaz de libertar uma saraivada de impropérios antiquados.»