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Opinião: "Quantos Ventos na Terra" de Maria Isaac

Neste terceiro livro de Maria Isaac regressamos a Mont-o-Ver e a algumas das personagens já bem conhecidas de quem leu os dois primeiros livros. 

Novos acontecimentos, mistérios e algumas surpresas, levam o leitor a embarcar numa viagem fora do normal, pela mão de um grupo de miúdos, os pequenos vilões conhecidos pelo Bando dos Canaviais.

Em destaque está uma menina: Cuca, uma criança albina de quem se diz ter um dom especial. Enamorei-me por esta pequena jóia, e tenho pena que a autora não tenha desenvolvido um pouco mais esta personagem, que é de uma riqueza extraordinária.

Como anteriormente, a escrita da autora sobressai. É bom encontrarmos jovens autores portugueses nas estantes das livraria, e nos podermos deliciar com as suas obras. Agora gostava de ler algo diferente pela mão desta autora. Fica o desafio, Maria Isaac. 

E muitos parabéns Suma de Letras, por mais uma aposta brilhante!

Em destaque: "Quantos Ventos na Terra" de Maria Isaac

“Como é tradição nas boas histórias de aventura, também esta começa numa noite de chuva, com uma caça ao tesouro.”
 

Sinopse:
Cuca, a menina albina que acredita nos segredos de fantasmas de homens mortos, arrasta o Bando dos Canaviais para uma inesperada aventura de caça ao tesouro.
Quando também os adultos deslumbrados e cheios de certezas se lançam na corrida ao ouro, uma pequena vila é devastada pelos seus sonhos tornados realidade.
 
Esta vila, talvez já a conheçam, chamada de Mont-o-Ver, e quem sabe, até ouviram falar de alguns dos seus pequenos vilões.

Zé Mau, Sucata, Mata-Mata, Tico, Badé, Chica, Estrela, Barbicha e os irmãos Marcolino, eles são o Bando dos Canaviais, essas crianças improváveis que caberá a cada um de vós julgar. 

Opinião: "O Que Dizer das Flores" de Maria Isaac

Li o primeiro livro de Maria Isaac com grande prazer. "Onde Cantam os Grilos" foi uma lufada de ar fresco, tanto na prosa como no conteúdo, tão português e genuíno. Obviamente, quando surgiu este novo livro, soube que tinha de o ler.

Apesar de haver algumas similaridades com o primeiro livro, este não me conquistou da mesma forma. Talvez por falta de uma personagem principal que me agarrasse como o Formiga agarrou. Inicialmente até pensei que Catalina fosse o "Formiga" deste livro, mas não. Não sei. Faltou ali qualquer coisa. Ou talvez a minha expectativa fosse demasiado alta. 

A história, no entanto, está bem construída, mantendo o leitor preso ao desenrolar da vida na vila de Mont-o-Ver. As personagens, muito verosímeis, parecem ter sido retiradas de um qualquer vilarejo português. Será que alguém se reverá nesta história?

Apreciei o facto da autora ter demonstrado como é uma vila portuguesa a caminho da desertificação. A partir do momento que a autoestrada lhe passa ao lado, retirando o potencial visitante que viesse por uma nacional, Mont-o-Ver vai perdendo não só habitantes, como algumas infraestruturas importantes que desaparecem por falta de gente. É um retrato fiel do interior do país.

Entretanto, a riqueza de qualquer lugar está na gente que o habita. E assim acontece também em Mont-o-Ver. Cada personagem tem a sua história, que se intercala na dos outros, e tal como acontece numa vila a sério, todos estão ligados. Para além disso, existiu há uns anos, um acontecimento que os uniu mais do que o normal. Um incêndio na igreja, onde morreu uma pessoa, que ainda esconde alguns segredos, e cuja revelação vai afetar a vida de alguns. Este é o mistério do livro e à roda do qual tudo gira.

A escrita da autora mantém-se inalterada, perfeita como no primeiro livro. Só tenho pena de não me ter apaixonado por este livro como pelo primeiro. Mas continuo fã da autora e à espera de mais.


Em destaque: "O Que Dizer das Flores" de Maria Isaac

BEM-VINDO A MONT-O-VER!

Português que se ponha a caminho da montanha, no inverno, ou da praia, no verão, é certo passar por esta planície de canaviais; mais certo ainda, é nem dar por ela. A velha via-férrea passa-lhe ao lado e os comboios já nem sequer abrandam por aqui. Em tanto espaço igual, esta é paisagem fácil de se perder.

Pois permitam que vos apresente os ilustres da vila.

O padre Elias Froes, o homem santo que tem por hábito gastar tempo a pensar no mundo, raramente em si próprio. Guarda segredos que mais ninguém sabe.

Catalina Barbosa, aventureira e contestatária. Menina bem-comportada apenas aos domingos, quando a avó a amordaça dentro de um vestido bonito para ir à missa.

Rosa Duque, a mulher que, em tempos, teve tudo para ser feliz. Foi vencida por um coração partido e resgatada por uma flor.

Zé Mau, o terror na vida das crianças. Os irmãos Mondego, os vilões nas histórias dos adultos.

Este vilarejo pode até ser pequeno e parado, mas está cheio de gente atrapalhada com muita vida para esconder.

Descubram comigo o que aconteceu, afinal, na noite do grande incêndio uma década antes e quem são os verdadeiros heróis desta nossa história pitoresca, temperada com os habituais mal-entendidos.

Bem-vindo a Mont-o-Ver!


"Onde Cantam os Grilos" de Maria Isaac (opinião)

E o que se escreve quando se gosta muito de um livro? Quando a sua leitura nos enternece, nos conquista e nos transporta para dentro da história transformando-nos numa personagem silenciosa, que assiste mas não interfere? Foi assim que me senti ao ler este maravilhoso livro. 

É uma lufada de ar fresco, este "Onde Cantam os Grilos". A história de uma família contada de forma absolutamente ternurenta pela voz de uma personagem de tenra idade, de seu nome Baltazar e alcunha Formiga, pois quando chegou à Quinta do Lago, nunca se vira "coisa mais pequena e escurinha". Apaixonei-me por esta Formiga. Um menino genuíno e tão enternecedor quanto malandro, tal como todos os meninos devem ser.

A família da Herdade do Lago, os Vaz, é-nos então apresentada por Formiga. Cada um deles visto por aqueles olhos pequeninos e inocentes, com o coração à beira da boca, e rapidamente nos sentimos cativados por cada uma das personagens, todas elas muito genuínas e humanas, com as suas características e diferentes intensidades.

Mas, como não poderia deixar de ser, não há bela sem senão, e o senão aqui são os mistérios que se adensam à medida que a narrativa do pequeno Formiga vai avançando. Como se o dia-a-dia da Herdade não bastasse para alimentar a sua curiosidade, Formiga procura, escuta conversas às escondidas e tenta ficar a par de todos os segredos, subindo a árvores, descobrindo esconderijos que o tornam invisível, terminando por vezes à toa, sem saber exatamente como lidar com a informação que descobre.

E é assim que, quando o último e o maior segredo se revela, a infância de Formiga abruptamente termina. E nós, leitores, com grande pena temos de o deixar partir, rumo a uma nova vida, desejando poder acompanhá-lo mas sabendo que, tal como o resto dos Vaz, ficámos presos à Herdade do Lago.

Um livro absolutamente maravilhoso cuja leitura recomendo sem hesitações. Uma excelente aposta da Cultura Editora, que já está a deixar a sua marca no mercado editorial português. Espero pode vir a ler mais livros desta autora que não conhecia mas que me conquistou.

É dever de cada um de nós viver o melhor e o pior da natureza humana.