"Arroz de Palma" de Francisco Azevedo (Opinião)

Gosto de deixar passar algum tempo entre o final da leitura de um livro e a elaboração da minha opinião. É quase como se necessitasse de apurar o paladar. Sabem, como o abrir do arroz, quando se desliga o lume e deixamo-lo sossegado por mais alguns minutinhos? Calhou por acaso eu ter um casamento na família, entretanto. E foi como se as palavras deste autor ecoassem na minha mente, abrindo o meu coração para sentir mais, experienciar mais, saborear mais, este prato que é a família.

«Enfim, receita de família não se copia, não se inventa. A gente vai aprendendo aos poucos, improvisando e transmitindo o que sabe no dia a dia. A gente cata um registro ali, de alguém que sabe e conta, e outro aqui, que ficou no pedaço de papel. Muita coisa se perde na lembrança. Principalmente na lembrança de um velho já meio caduco como eu. O que este veterano cozinheiro pode dizer é que, por mais sem graça, por pior que seja o paladar, família é prato que você tem que experimentar e comer. Se puder saborear, saboreie. Não ligue para etiquetas. Passe o pão naquele molhinho que ficou na porcelana, na louça, no alumínio ou no barro. Aproveite ao máximo. Família é prato que, quando se acaba, nunca mais se repete.»

Como diz o ditado, primeiro estranha-se, depois entranha-se. Foi assim que me senti ao ler este Português do Brasil. Começa por ser difícil de digerir, mas depois entramos no ritmo, e as palavras surgem com uma musiquinha de fundo, talvez bossa nova, balançando esta alma portuguesa e tornando-se minhas também. Foi uma leitura apaixonada. Pela escrita, pela história e pelas personagens. Ricas e maravilhosas, tudo muito bem misturado com sabor brasileiro e cheirinho a Portugal.

Quem nos conta a história desta família de Viana do Castelo que emigrou para o Brasil no início do século XX é o filho mais velho, Antonio, agora com 88 anos e que em vésperas de celebrar o aniversário com toda a sua família, vai recordando as histórias do passado, inclusive as que não viveu, mas que soube pelos pais ou pela sua querida tia Palma. A história do arroz, que dá nome ao título é absolutamente deliciosa! António conta que no dia do casamento dos seus pais, José Custódio e Maria Romana, e como manda a tradição uma imensidão de arroz é lançada em cima dos noivos, com votos de felicidade, fertilidade e abundância. Tia Palma, irmã de Custódio e possuidora de uma alma especial , foi à noite recolher do chão todo os bagos de arroz oferecendo-os de seguida como presente aos recém-casados.
«Este arroz - plantado na terra, caído do céu como o maná do deserto e colhido da pedra - é símbolo de fertilidade e eterno amor. Esta é a minha bênção.»
Se naquela altura, Custódio ficou indignado, anos mais tarde foi forçado a reconhecer a importância do arroz e daquela bênção.

Casamentos, batizados, zangas e separações, diferentes opções de vida e de escolha sexual, traições, mortes e sorte, tudo o que possamos imaginar que ocorra numa família é-nos aqui relatado de uma forma quase poética. De tal forma que nos faz sorrir, rir e chorar, e querer partilhar e recordar, pois nela encontramos semelhanças com a nossa própria família.

«Família é prato difícil de preparar. São muitos ingredientes. Reunir todos é um problema, principalmente no Natal e no Ano Novo. Pouco importa a qualidade da panela, fazer uma família exige coragem, devoção e paciência.»

Um livro absolutamente maravilhoso. A não perder.

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