Opinião: "Gente Feita de Terra" de Carla M. Soares

Uma vez mais um autor português me surpreende. Não que seja nenhuma surpresa ser encantada pela escrita de Carla M. Soares, mas porque existe algo de diferente neste livro.
Talvez porque os fios da história de Filomena, a personagem central desta história, se emaranham nos fios da história de Carla M. Soares, ela própria uma retornada sem ter retornado, alguém que por ter saído cedo da terra onde nasceu, desconhece os seus cheiros, as suas formas, e de algum modo se sente orfã de "terra". Como o título indica, seremos nós Gente Feita de Terra ou será que é a terra que é feita de gente?

Acompanhamos as histórias de duas mulheres, mãe e filha, Brígida e Filomena. Uma abandona o seu Alentejo por amor a um homem, em cujos olhos de mar ela se afogou. Ruma a terra desconhecida, que a acolhe e que ela com dificuldade adota como sua. Outra, Filomena, sente-se desenraizada numa Lisboa contemporânea, e tenta, perceber a que local afinal pertence.

Apaixonei-me pela história de Brígida. Senti-me como se também eu tivesse sido levada a tudo deixar para seguir o amor de um homem que, apesar de me amar, não consegue fazer-me a única dona do seu coração. A descrição dos sentimentos, a luta interior, a dor e a mágoa, tudo, Carla M. Soares conseguiu transmitir sem mácula. Percebe-se que as palavras vieram de dentro para fora, e não de fora para dentro, se é que isto faz sentido.

A história está muitíssimo bem organizada, e apesar dos muitos saltos temporais, não existe confusão, nem equívocos. Sabemos sempre quem fala e de onde fala, tanto época, como local. As descrições dos locais estão perfeitas, completamente infiltradas por entre a narrativa, quase sem se fazerem notar, como um perfeito complemento. E todas as personagens têm o seu grau de importância para a história, e estão desenvolvidas na perfeição, consoante o seu papel.

Adorei esta leitura. Quer-me parecer que se trata de um livro perfeito. Abordando um tema difícil, ensina-nos e faz-nos querer saber mais sobre um tema que talvez não tenhamos aprofundado muito. Acaba por ser também uma leitura indispensável, não só para quem viveu aqueles tempos conturbados e teve de abandonar a sua terra, como para quem os recebeu, bem ou mal. Que de uma vez por toda se entenda que não há eles e nós, só há NÓS.

Carla, com este superaste-te. Muitos parabéns! <3
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