Mostrar mensagens com a etiqueta Leituras 2020. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Leituras 2020. Mostrar todas as mensagens

Opinião: "O Livro dos Amigos Perdidos" de Lisa Wingate

Este é um livro inspirado em eventos reais. O Livro dos Amigos Perdidos poderá não ter existido, mas existiram os anúncios dos Amigos Perdidos, em jornais do Sul dos EUA após a Guerra Civil, onde escravos recentemente livres procuravam membros das suas famílias e amigos que haviam sido vendidos. Esses anúncios eram muitas vezes lidos no púlpito das Igrejas ao domingo, para que a mensagem chegasse a toda a população. 

Lisa Wingate, que já conhecemos de outro livro igualmente interessante (Antes de Sermos Vossos), mostrou-se à altura de mais uma história pungente e poderosa. Ela salta entre séculos ao contar a história de três jovens mulheres (uma ex-escrava, a filha do dono de uma plantação, e a filha mestiça desse mesmo homem) e a história de uma jovem professora que tenta cativar os seus alunos para a leitura, através da História dos antepassados deles. Ambas as histórias passam-se no mesmo local.

Por vezes, nestes livros que saltitam entre épocas, acabamos por gostar mais de uma história do que de outra. Neste, porém, isso não me aconteceu. Gostei igualmente, e muito, de ambas. No final de cada capítulo apetecia-me saltar o próximo para continuar a história. Mas depois no seguinte, sentia exatamente o mesmo. 

Esta autora é exímia no que diz respeito à organização da história. Em altura nenhuma ficamos confusos, ou sentimos que lemos algo que não faz sentido ali. Não. Está sempre tudo certo, no local correto.

As personagens estão muitíssimo bem delineadas, cumprindo a sua função na perfeição. Há as que adoramos, como Hannie, a pequena ex-escrava, e a professora Bennie, e as que detestamos como a Menina e a Senhora da casa. Mas elas existem porque só assim a história faz sentido.

No final a autora dedica um capítulo à explicação histórica dos anúncios Amigos Perdidos. É algo muito interessante que gostei imenso de descobrir. Mais um facto que desconhecia da História dos EUA.

Quem for ler este livro não se irá arrepender. É garantida uma história muitíssimo interessante, com nuances brutais, que nos mostra um pouco do que foi a vida para os escravos libertados nos EUA do pós Guerra Civil, e como hoje em dia ainda permanece um outro tipo de segregação, a de classes económicas. Muito, muito bom!

Opinião: "Tudo é Possível" de Elizabeth Strout

Comecei a ler este livro algo entusiasmada, pois tinha lido "O Meu Nome é Lucy Barton" e adorei. E o género mantém-se: a dissecação das emoções que uma pessoa sente ao tentar compreender-se a si e aos que a rodeiam. Algo em que Elizabeth Strout se tornou mestre. No entanto, e ao contrário do primeiro, não consegui ligar-me à narrativa. Talvez por não haver um fio condutor como no outro livro, e cada capítulo ser praticamente uma história separada. Ou talvez, como tantas vezes: livro certo, altura errada.

Bem, em "Tudo é Possível" a autora dedica-se a contar as histórias de algumas pessoas da mesma vila de Lucy Barton, incluindo as dos seus irmãos. É interessante regressar à vila de Amgash no Illinois, uma pequena vila no interior dos EUA, e reconhecer nalgumas daquelas pessoas, personagens que figuraram no livro de Lucy, nas suas recordações de menina, e nas conversas com a mãe.

Neste livro, cada capítulo é dedicado a uma personagem (ou família). Simultaneamente são abordados diversos temas como a pobreza extrema, a educação (ou a falta dela), a diferença de classes sociais, problemas comuns a tantas vilas do interior dos EUA. 

São histórias complexas, muito tristes, algumas quase absurdas... e plenas de melancolia, muita melancolia. O que talvez me tenha condicionado a leitura. Não que eu queira ler livros bonitinhos e cor-de-rosa. Não. Apenas não gostei do sabor com que fiquei na boca. Um travo agridoce. 

Mas é uma leitura que fica. Sem dúvida que fica. E deixa-me querer ler mais livros de Elizabeth Strout.


Deixo-vos a sinopse:

Depois do sucesso de O Meu Nome É Lucy Barton, Elizabeth Strout regressa com um mosaico delicado da vida de todos os dias, um retrato íntimo das pessoas comuns que tentam entender-se e entender os outros, esforçando-se por ultrapassar o sempre crescente abismo entre o desejar e o ter.

Lançando um olhar sobre as ambiguidades e ambivalências da alma humana, Tudo É Possível é um hino à sensibilidade e à compaixão.

Opinião: "A Dança das Estrelas" de Emma Donoghue

Reservo todas as minhas horas de almoço à leitura. São cerca de 45 minutos seguidos a ler. Mais ou menos 50-55 páginas. Este livro tem 304. Li-o em 5 vezes. Literalmente, DEVOREI-O. 

"A Dança das Estrelas" de Emma Donoghue tomou de assalto a minha lista de leituras, tornando-se no Melhor Livro do Ano. Sem dúvida nenhuma! É que não é só o tema que é fascinante, mas também a conjuntura da época em que se desenrola a ação que é tão similar à atual. E as personagens... aquela enfermeira Julia... bem, estou quase sem palavras para descrever o quanto gostei deste livro. 

Comecemos pelo princípio.

Ano 1918, fim de outubro, início de novembro. O armísticio está prestes a ser assinado entre os Aliados a a Alemanha, mas outra guerra está a ser travada mundialmente, a Gripe Espanhola. A pandemia assola todos os países do mundo, e por todo o lado surgem cartazes como o da foto abaixo. A Irlanda não é exceção. Grande parte da ação desenrola-se durante três dias, num pequeno quarto de hospital destinado a parturientes infetadas pela gripe

O ritmo é alucinante. Acompanhamos cada segundo da vida de Julia, uma enfermeira parteira que tem a seu cargo três camas. Com a ajuda de uma jovem tarefeira, e da ocasional visita do médico de serviço, ela tem de lutar pelas mulheres que colocaram as vidas, suas e dos seus bebés, nas suas mãos. Simultaneamente ficamos a conhecer as histórias trágicas por trás de cada uma delas, que no fundo são importantes marcos na história da Irlanda.

As palavras "máscara", "pandemia", "contágio", e a menção de situações tão semelhantes às vividas nos dias de hoje não me afetaram, como poderão afetar outros leitores. Deram-me, sim, a esperança de que também isto se irá resolver, e esta pandemia que agora atravessamos irá ficar para trás, como a de há cem anos.

Fiquei ligeiramente dececionada com o final um pouco abrupto. Mas a verdade é que acho que todo e qualquer final me iria desiludir, após uma leitura tão empolgante. Juro que quase me senti traída pela história ter acabado. Só pensava "o que é que vou ler a seguir a isto?". A sério que não estava preparada.

É um livro excecional. Uma leitura fenomenal, uma autora comprovadamente fabulosa! Recomendo sem hesitações. É mesmo assim tão bom!!!

P.S. Adorei o título. Tem uma explicação genial! O nome Influenza advém do italiano, que alude à causa da doença, que é uma influência das estrelas. Daí o nome, A Dança das Estrelas.

Opinião: "O Último Comboio para a Liberdade" de Meg Waite Clayton


Comecei esta leitura com grande entusiasmo, pois o que nos é importante saber, para além da Segunda Grande Guerra no seu todo, são as histórias individuais, que dão cor à História. No fundo, cada árvore, ao invés da floresta.

O tema abordado é o Kindertransport (transporte de crianças), um movimento que surgiu na Europa, no início da Guerra, em que o objetivo principal era enviar as crianças judias para locais seguros, como a Inglaterra. O livro aborda a história de Geertruida Wijsmuller-Meijer, um membro ativo da Resistência Holandesa, mais conhecida por Tante Truus, que existiu mesmo e que conseguiu salvar  mais de 10.000 crianças judias.

Paralelamente, vamos acompanhando o drama de dois jovens:
- Stephan, filho de uma proeminente família judia de Viena, que se vê despojada do seu negócio e bens;
- Zophie, amiga de Stephan e filha de uma jornalista austríaca que se recusa a deixar de escrever sobre as atrocidades cometidas pelos alemães.

A cereja no topo do bolo é Adolf Eichmann, o encarregado de "limpar" a Alemanha de todos os judeus, que figura igualmente como personagem nesta história. Ele e o seu cão.

Foi interessante acompanhar a anexação da Áustria em 1938, e a campanha de reeducação levada a cabo por Hitler. É igualmente interessante o pormenor dedicado à Arte, e o que era considerado degenerado ou não pelos nazis. É um livro cheio de pormenores históricos interessantíssimos, e só por isso valeu a pena ler.

No entanto, tenho de ser sincera, não me conseguiu cativar o suficiente para fazer aquele "click". Talvez por estar à espera de uma história mais emocional e não tão factual, ou porque pura e simplesmente não foi a altura certa para o ler. De qualquer das formas é um livro que quero manter em estante. Um dia hei-de voltar a ele. Mas recomendo a quem é apaixonado pelo tema. É um livro mesmo muitíssimo interessante.

Opinião: "O Meu Nome é Lucy Barton" de Elizabeth Strout

Uma amiga ofereceu-me o livro "Tudo é Possível" desta autora, e ao pesquisá-lo, percebi que apesar de não ser a continuação de um anterior, tinha de facto diversas personagens em comum, as mesmas que coloriam a história de Lucy Barton. Optei então por adquirir "O Meu Nome é Lucy Barton" e lê-lo primeiro.

À noite, ao deitar, enrosquei-me com o meu Kobo, e decidi ler só as primeiras páginas do livro. Qual quê!? Li quase metade, e noite dedicada ao sono ficou mais curta. Não vos acontece de vez em quando?

A verdade é que fiquei presa às palavras de Lucy, como numa conversa entre amigas e ela me estivesse a contar a sua história. Simplesmente magnífico. Adorei.

Fez-me lembrar um pouco o Castelo de Vidro de Jeannette Walls, se bem que não tão elaborado. É pela simplicidade da escrita que esta autora, Elizabeth Strout, nos desarma, sendo que não é propriamente um relato da vida de Lucy, mas mais considerações que a mesma faz sobre a sua vida, presente e passado. 

Depois, de repente termina. E o que sentimos é uma necessidade incrível de "continuar à conversa" com a Lucy, estar dentro do seu mundo, e conhecer mais sobre aquela alma simples que descobriu o segredo de estar me consigo própria.

O que aborda exatamente o livro, perguntarão alguns. A meu ver, a vida. Simples como ela é. Apesar de a tornarmos complicada. Acaba por ser uma história de esperança, pois se Lucy consegue ficar em paz com o seu passado, também nós o conseguiremos. Certo?

Recomendo. Sem hesitações. E estou muito feliz por ter o novo livro sobre o mundo de Lucy Barton. 

P.S. Podem espreitar a sinopse: aqui.




Opinião: "Alguém para Tomar Conta de Mim" de Yrsa Sigurdardottir

Andava com vontade de ler um policial, mas nada muito hollywoodesco. Como ando a ver alguns filmes e séries nórdicas, lembrei-me de procurar um livro que viesse dessas bandas. Deparei-me então com esta capa, que me fez lembrar um filme sueco que vi recentemente (Red Dot - se não viram, recomendo!). E foi assim que chegue a esta autora islandesa de policiais, Yrsa Sigurdardottir. 

A sinopse, confesso, também me cativou de imediato. Ora leiam:

«Um jovem adulto com síndroma de Down foi condenado por ter ateado fogo às instalações do lar de cuidados continuados em que vivia, provocando um incêndio que causou cinco mortos. Porém, um dos ocupantes da ala psiquiátrica de segurança em que agora se encontra vai contratar Thóra para provar que Jakob está inocente.

Mas se não foi Jakob o autor do crime, quem será? E de que forma é que o múltiplo homicídio estará ligado à morte de uma jovem mulher por atropelamento e fuga?»

E assim iniciei a leitura deste livro.

Gostei bastante da escrita da autora. Clara, descomplicada e bem organizada, o que é muito importante quando se trata de policiais. Por vezes a falta de organização é o suficiente para dar cabo de um livro. Mas não é o caso aqui. Apesar de inúmeros personagens, (temos as vítimas, os familiares, os funcionários, a investigadora e a sua família, etc, etc, etc), e dos seus nomes fora do normal para mim, não me perdi nem um pouco na história. Um verdadeiro puzzle todas as peças têm o seu lugar. 

Aprendi um pouco sobre o autismo e algumas das terapias relacionadas com a síndrome, apesar de estarem certamente um pouco desatualizadas, dado o ano em que se passa a ação. Em 2010 a Islândia estava em plena recessão económica, e a autora incorpora esse facto na história, tornando-a ainda mais interessante e realista.

Ao que parece este livro é o quinto de uma série relacionada com a protagonista principal, Thóra Gusmundsdóttir. Gostei imenso de a conhecer e fiquei curiosa sobre o seu percurso. Um destes dias, se calhar, pego noutro livro da série.

Foi uma leitura algo refrescante, fora do habitual, e perfeita para a época, com os nossos céus nublados a darem o tom certo às páginas deste livro.


Opinião: " O que Contamos ao Vento" de Laura Imai Messina

No nordeste do Japão, em Iwate, um homem instalou uma cabine telefónica no seu jardim. Dentro dela está um antigo telefone preto, que não está ligado a nenhuma rede, mas que leva as vozes no vento. Esse local existe e é necessário. Ali muitos vêm deixar as suas palavras ao vento para que as leve aos destinatários. Por todo o mundo replicam-se locais semelhantes, mas este foi o primeiro. Criado pela necessidade após o terrível evento que assolou o Japão a 11 de março de 2011 (sismo e tsunami de Tohoku), peregrinação para muitas pessoas que ali encontraram uma forma de "comunicaram" com os seus entes queridos. 

A autora deixa um pedido bem claro no seu livro. Este local não é um local de turismo. É um local sagrado, onde só deve ir quem dele precisa.

Através de uma simples e doce história, Laura Imai Messina, toca os nossos corações. O mote é que todos nós temos algo para dizer a quem já partiu. E é essa oportunidade que proporciona o telefone do vento. Na realidade não é este telefone, nem o local que são importantes. É a ideia que é importante. Todos nós temos alguém que perdemos. Não só para a morte. Por vezes amizades que se desfazem, amores que se desvanecem. E tantas vezes fica algo por dizer. O importante sabermos lidar com isso. Com as palavras que ficam para trás. Com a dor que não nos abandona. Com a saudade...

Pegando nesse local real, ao qual tanta gente já recorreu, a autora conta-nos a história de Yui, uma radialista, que perdeu a mãe e a filha no terrível terramoto / tsunami de 2011. Com as águas desse tsunami seguiu também a sua alegria de viver, e a sua vontade de estar neste mundo. Num dos programas que apresenta na rádio, ouve falar então desse local, e decide ir visitá-lo. Ali ela conhece Takeshi, um médico com uma filha de quatro anos, que emudeceu no dia em que a mãe morreu. Juntos eles enfrentam as suas perdas e criam uma estranha amizade que se vai fortalecendo ao longo dos tempos e das intempéries. 

Apesar de ficção, sabemos que é uma história que bem poderia ser real. Por isso não é uma história fácil. É uma história sobre a dor e a incapacidade de lidar com a perda. Mas é uma história intemporal e provavelmente bastante útil para quem se encontra numa situação similar. Fechada na sua dor, sem conseguir fazer chegar a sua voz a quem partiu.

Fico feliz por ter tido a oportunidade de ler este livro. Fez-me bem. Perdi a minha mãe em 2020... 

Para além disso é um livro muitíssimo bem escrito, num tom doce e melancólico, e de alguma forma respeitando os modos do local onde se passa a ação, o Japão. Gostei mesmo muito. Apesar de triste, é sem dúvida lindíssimo.

Opinião: "A Pequena Farmácia Literária" de Elena Molini

Esta foi uma das leituras mais divertidas deste ano fora do normal!

Já se sabe que tudo o que tenha a ver com livros é para mim uma perdição. Por isso, como seria possível fugir a um título destes???? Simples. Não era.

E o mais surpreendente é existe mesmo! A Pequena Farmácia Literária existe em Itália, Florença, e a sua dona, autora deste livro, seguindo os preceitos da biblioterapia, aconselha livros com base no estado de espírito dos leitores tal como se fossem medicamentos. Brilhante, ou não?

Bem, ao que parece Elena Molini decidiu embrenhar-se mais a fundo na arte livreira, e escreveu este livro. A história baseia-se na livraria A Pequena Farmácia Literária e na vida de Blu, a sua fictícia dona e as suas amigas. E meus amigos, que viagem alucinante!!! A sério! As cenas sucedem-se com uma rapidez que tal, que deixa qualquer leitor mais incauto completamente zonzo. E os acontecimentos são na sua grande maioria, hilariantes. 

Por isso meus caros, se querem diversão, com livros e leitores à mistura, embarquem nesta leitura mas metam o cinto de segurança, pois não imaginam as ruelas que irão percorrem à pendura de uma das mais loucas personagens literárias que já conheci. 

Recomendo.

Opinião: "Quando eu era pequenina" de Luísa Castel-Branco

Gosto imenso da palavra escrita da Luísa Castel-Branco. Por isso sempre que ela publica um novo livro, eu tenho de o ler. Gosto tanto dos seus livros de fição (e acreditem, são mesmo bons!), como das crónicas que escreve ou dos livros autobiográficos, como este que agora vos trago. 

Talvez por ter nascido fora da época. Ou seja, nasci vinte anos mais tarde do que devia (a minha mãe tinha 41 e o meu pai 46 anos). Ele era um homem severo, salazarista, e eu uma inútil rapariga. Acreditam que só no 9.º ano tive autorização para usar calças? Enfim... Esta é uma das razões porque gosto tanto de ler sobre essa outra época, vinte anos antes do meu nascimento, sensivelmente na altura em que Luísa Castel-Branco era uma menina, e cujos tempos agora recorda neste livro.

"Quando eu era pequenina" é o primeiro livro de um conjunto de três, e nele Luísa recorda exatamente a sua infância. As recordações de uma Lisboa de outros tempos, e dos arredores de outros tempos, quando ainda não eram dormitórios, mas tinham vida própria. As recordações também do seu lugar de férias, com o qual (tal como eu!) ela não tinha nenhuma ligação própria. Foi adotado pela sua família como a "terra" para onde se ía nas férias (no meu caso, pasmem-se, era Entre-os-Rios! Mais precisamente as Termas da Inatel).

Adoro o tom com que ela nos conta curiosidades e situações sobre a sua meninice, enquanto simultaneamente se auto-psicanaliza. Tem toda a razão, cara Luísa, a escrita é a melhor forma para lidarmos com os sentimentos e traumas. Libertamos as nossas frustrações no papel e de imediato nos sentimos mais leves. Para quem gosta de escrever, não há melhor terapia!

Resumindo, gostei mesmo muito. Acaba por ser um livro que nos obriga a crescer, pois ao olharmos para nós próprios também quando éramos crianças, apercebemo-nos da distância e da importância de certas coisas, e acabamos por ficar bem com elas. Acredito sempre que, acima de tudo, temos de fazer as pazes com o nosso eu-criança. Só assim conseguimos crescer.

Bem haja, Luísa. Fico à espera da continuação.

Opinião: "Mulheres da minha Alma" de Isabel Allende

Este foi o primeiro livro não ficção que li de Isabel Allende. Tenho lido os outros, os de ficção, e sei que ela é uma exímia contadora de histórias, por isso não foi difícil embarcar nesta viagem com ela. E que viagem interessante foi!

Uns dias antes de pegar na leitura tive a oportunidade de ver em direto uma entrevista no Facebook da Porto Editora*. A entrevistadora, Raquel Marinho, tinha as perguntas certas para lhe colocar, e a maravilhosa Isabel Allende, do alto dos seus 78 anos, encantou tudo e todos. Eu pelo menos fiquei fascinada com esta senhora, tão sóbria, tão consciente de si mesma e do mundo que a rodeia, a dar verdadeiras lições de vida a quem quiser aprender. Adorei. Não pude por isso adiar muito mais a leitura. Foi apenas terminar o livro que tinha em mãos e lá fui eu. 

O que encontrei foi pura e simplesmente a própria Isabel Allende em cada página daquele livro. Numa verdadeira conversa informal com o seu leitor, ela aborda diversos temas que lhe são queridos, ao mesmo tempo que fala de marcos importantes da sua vida e também de como é envelhecer e até da situação atual de pandemia que agora vivemos. 

Com temas sempre à volta das Mulheres, ou não tivesse este livro o título que tem, ela fala das que a formaram, as da sua família e as outras, das que como ela tentaram fazer diferença na história do feminismo, das que sucumbiram, das que se salvaram. Contando histórias, desfiando memórias, ela encanta, ensina, aconselha. Emocionante, por vezes até chocante, foi uma leitura que muito me agradou. Sinto que fiquei a conhecer um pouco mais esta Mulher tão rica, que ainda tem tanto para nos dar. Espero que dure ainda muitos anos e nos continue a brindar com pérolas deste género ou de ficção. É uma honra e um prazer ler Isabel Allende.

*Podem ver o vídeo da entrevista aqui.

Opinião: "A Dádiva da Costureira de Paris" de Fiona Valpy

Fui atraída para este livro por várias razões. Uma dela por abordar a história de uma costureira, algo que me é muito familiar e querido, e claro, por abordar uma das épocas mais interessantes da história, a Segunda Grande Guerra. 

Estou sempre à procura de abordagens menos tradicionais ao tema. Um pouco farta das "profissões de Auschwitz", acabei por encontrar uma história, também ela sobre uma profissão, mas um pouco diferente. Pelo menos a ação não se desenrola completamente em Auschwitz, mas maioritariamente em Paris, uma cidade que de algum modo conseguiu perservar o seu glamour, mesmo durante a ocupação nazi. E uma das coisas que exatamente conseguiram sobreviver, foram as casas de alta-costura, como a que trabalhavam as três pequenas costureiras da foto. Por falar nisso, não está bem conseguida a capa? Adoro.

Muitíssimo bem escrita e com a história bem organizada, os saltos temporais intercalam-se entre capítulos, e enquanto num ficamos a conhecer as netas de duas das mulheres da fotografia, noutro mergulhamos na ação da Resistência em plena Paris de 1940.

Foi uma viagem fantástica que recomendo sem hesitações. É uma leitura que cativa enquanto nos ensina algo mais sobre a natureza humana e sobre este episódio negro da história mundial.

Opinião: "O Silêncio da Minha Mãe" de Lauren Westwood

Esta foi uma leitura que preencheu todos os requisitos. Precisava de um livro com uma história algo leve, que me entretivesse mas, que simultaneamente, o enredo me prendesse. Gosto de histórias cujos locais onde se passa a ação me cativem, sítios que um dia gostaria de visitar. Um deles é exatamente a Escócia, principalmente a zona das Terras Altas, que já foi cenário para alguns filmes bem conhecidos. Foi portanto uma viagem bem interessante!

A autora adicionou também uma componente musical à história, o que muito me agradou. A música celta faz sem dúvida parte da banda sonora obrigatória para acompanhar esta leitura.

Outro ponto a favor do livro é o tema - um acontecimento trágico afeta profundamente uma família, e agora, passados 15 anos, surge finalmente a oportunidade de sarar velhas feridas e simultaneamente descobrir a verdade que esteve durante tanto tempo oculta. Laços familiares tumultuosos e segredos escondidos dão sempre um bom tema de leitura, não concordam?

A autora escreve mutíssimo bem. As descrições dos locais e situações são bastante verosímeis, pelo que me pareceu por vezes estar no local, como uma simples espectadora. Ela conseguiu igualmente criar um grupo de personagens com problemas complicados, que nos soam muito reais, e a forma como a história está contada ajuda a clarificar a situação, embora existam diferentes saltos temporais e personagens em diferentes fases e locais das suas vidas.

Resumindo, foi uma leitura que muito me agradou e que recomendo sem hesitações. Umas horas bem passadas ao som da música celta e ruídos do mar. 

Opinião: "Traição" de V. S. Alexander

Este novo livro do autor de A Provadora (que adorei) consegue trazer um novo olhar sobre a Segunda Guerra Mundial. Confesso que estou um pouco farta das últimas abordagens ao tema, a que eu chamo de "as profissões de Auschwitz". O mágico, o tatuador, o carteiro, o voluntário, o fotógrafo, a bailarina, o farmacêutico, a bibliotecária, o sabotador, o contabilista*, para além de o bebé, os bebés, as irmãs, as gémeas, o rapaz e a última testemunha. Atenção, todos estes nomes são títulos verídicos de livros ou filmes* publicados recentemente! 

Bem, como estava a dizer, estando um pouco farta desta abordagem, mas continuando a gostar do tema, procuro sempre algo diferente. E encontrei-o neste livro de V. S. Alexander. Desta feita através de uma história ficcionada inspirada num movimento de resistência de alemães contra o nazismo, que existiu mesmo: a chamada Rosa Branca

Este movimento, de inspiração católica, tinha como objetivo abrir os olhos dos alemães contra o nazismo. Faziam-no através de panfletos enviados aleatoriamente por correio, ou deixados em locais estratégicos, a custo de grande risco para os seus escassos membros. Os seus membros mais notórios foram condenados à guilhotina pela Gestapo, e todos eles aparecem no "Traição" de V. S. Alexander. As duas personagens principais são, no entanto, ficcionadas de forma a permitir que o autor consiga manipular a história, embora não a História, atenção. Percebe-se o cuidado que ele tem com aquilo que foi real, quer personagens, quer acontecimentos.

Gostei bastante da escrita deste autor, sóbria, realista embora não dramática, e bastante convidativa à leitura. As personagens são obviamente muito reais, mesmo as inventadas, pelo que entendemos os acontecimentos como passíveis de ter mesmo acontecido. Assim que abria o livro para retomar a leitura, era imediatamente transportada para a época e local.

Foi um livro em que mais uma vez aprendi imenso. Nem todos os alemães se renderam ao nazismo, embora muito poucos tenham conseguido erguer-se contra essa força bruta e avassaladora que destruiu uma nação e um povo, para além das conhecidas vítimas do próprio holocausto.
Recomendo, sem hesitações. É uma leitura muitíssimo interessante!

Opinião: "Quem é amado nunca morre" de Victoria Hislop

"Quem é amado nunca morre" é um título tão abrangente que dificilmente o leitor adivinhará o tema. Mas quem conhece esta autora, Victoria Hislop, sabe que não se adivinha tema leve. Tem no entanto uma garantia de qualidade que só uns quantos autores possuem. Para além do mais, como poderão constatar no final da leitura, o título é mais perfeito do que poderiam pensar.

Neste livro Victoria Hislop regressa uma vez mais à Grécia, desta feita em pleno início da Segunda Grande Guerra. O conflito e as suas repercussões em território grego são-nos apresentados através dos olhos de Themis, a matriarca de uma família numerosa, que celebra os seus noventa anos. Pela sua voz, ao contar a história da sua vida a dois dos netos que se deixaram ficar para trás após a festa terminar, acompanhamos a vida de Themis desde os seus cinco anos até à atualidade. 

Não foi uma vida fácil, bem pelo contrário, atravessou eras conflituosas, não só a Segunda Guerra Mundial como uma Guerra Civil. E é todo esse período histórico que ficamos a conhecer de uma forma absolutamente humana e realista. Foi um livro com o qual aprendi imenso, e de certa forma nos explica o porquê das coisas hoje em dia serem como são. É bem verdade que a explicação sobre o presente se encontra no passado.

Themis é uma personagem maravilhosa. Consegue reerguer-se sempre que é deitada abaixo, e vez após vez, a sua determinação torna-se mais forte. É uma Mulher que nunca desistiu e que conseguiu vencer, criando a sua família, defendendo os seus ideais e acima de tudo, sobrevivendo mesmo quando tudo à volta se desmoronava.

Escrito com todo o respeito pelo povo grego, seus costumes e tradições, a autora conquista o leitor com facilidade, transportando-nos para uma época onde a realidade era bem diferente daquilo que hoje conhecemos. Através da escrita de Victoria Hislop dei por mim a viajar no espaço e no tempo, pelo que durante uns dias, as minhas horas de almoço eram passadas na Grécia, umas décadas atrás.

Adorei voltar a ler esta autora. E recomendo este livro sem hesitações. Vão ficar viciados em Victoria Hislop, um nome que vão querer descobrir. Não tenho dúvidas! ;)

Opinião: O Regresso" de Nicholas Sparks

Há uma mão cheia de autores que, ao longo dos anos, entraram no meu rol de favoritos e não mais saíram. Mesmo que me tenham vindo a cansar, pela repetição de histórias ou falta de criatividade, sempre que sai mais um livro deles, eu tenho de o ler.

Nicholas Sparks entrou nesta categoria há uns anos. As suas histórias tinham um selo de garantia que a mim muito me agradava. Quer fosse para intervalar leituras mais sérias, quer fosse para pura e simplesmente me deixar levar pelo romantismo. Ultimamente, deixei de me sentir “obrigada” a ler Nicholas Sparks, pois as histórias saíram um pouco daquela fórmula que ele utilizou durante muitos anos. Continuam a ser histórias onde prevalece o romantismo, mas ele aborda com mais alguma profundidade temas mais ou menos sérios, entrelaçando-os com o romance.

Neste livro, o autor aborda o transtorno do stress pós-traumático, do qual a personagem principal sofre em elevado grau, mas aborda também a produção de mel e a manutenção de uma colónia de abelhas mesmo ao pormenor, o que achei muitíssimo interessante.

A escrita de Nicholas Sparks parece-me mais sóbria, mais adulta. Não tão superficial, se é que me faço entender. As descrições dos lugares continuam encantadoras como sempre, levando-nos com facilidade ao local onde as cenas se desenrolam. Isso é algo que ele continua exímio a fazer.

Seja como for, a história flui com rapidez e foi um prazer acompanhar os dias de Trevor Benson, e a sua evolução para lá do TSPT, a pequena e fugidia Callie e o grande mistério que a envolve assim como ao avô de Trevor, e também Natalie, a sua relação com Trevor, para lá do segredo que esconde no coração.

Um livro que foi um prazer folhear e que recomendo para quem necessite de uma boa história para fugir da realidade dos nossos dias.

P.S. Adoro a capa.

Opinião: "Vidas Adiadas" de Dorothy Koomson

Dorothy Koomson é uma das minhas autoras favoritas. Já tive a oportunidade de estar à conversa com ela por duas vezes e acho que a evolução dela como autora tem sido impressionante. E como tem vindo a provar de cada vez que publica um livro, novamente, ela superou-se. 

Optei por reler o primeiro livro desta história de forma a ter a experiência completa. Afinal, já tinha lido Um Erro Inocente em fevereiro de 2011 e, obviamente, alguns pormenores já me escapavam. Foi uma excelente decisão. Reli o livro como se o estivesse a ler pela primeira vez e passei para o segundo com um simples virar de página. Ao fim e ao cabo, li 952 páginas de uma história fascinante que acompanha duas personagens ao longo de quase três décadas, as suas famílias e a sua evolução enquanto pessoas. 

Apesar de ser uma continuação da história, há nitidamente uma evolução na escrita da autora na direção do mistério, do policial, mas neste último livro´, ao contrário dos anteriores, ela deixa vir ao de cima o núcleo original da história, polémico, chocante, e como sempre, bastante envolvente para o leitor. De tal forma que a leitura voou, e tive de me esforçar por reter o livro um pouco mais tempo, pois estava a ser um prazer delicioso lê-lo.

Recomendo que façam como eu. Se não leram o primeiro livro, ou se o leram há já algum tempo, leiam os dois de seguida. É uma experiência fora de série. Não se vão arrepender.

Fico ansiosamente à espera por mais um livro teu, querida Dorothy. O teu selo de qualidade é impressionante. ;)

Opinião: "Terra Americana" de Jeanine Cummins

Venho falar-vos de um livro que, por coincidência, marcou a nossa entrada na era Covid. Foi publicado exatamente nessa malfadada semana de Março de 2020, quando o nosso mundo parou. Talvez por isso não tenha sido tão divulgado. As notícias não falavam de outra coisa, nas redes sociais não se falava de outra coisa, nós não pensávamos noutra coisa... E sem querer, eu ía perdendo um dos melhores livros do ano.

"Terra Americana" não aborda a pandemia, mas sim outro tipo de flagelo que nos vai passando ao largo, que tentamos não ligar. A realidade de milhares de pessoas, que ano após ano sucumbem ao tentar encontrar uma vida mais segura noutro país que não o seu. No caso deste livro, nos EUA. Sim, os famigerados mexicanos e outros sul americanos que fogem dos seus países simplesmente para tentar salvar as suas vidas. Infelizmente uma grande percentagem não o consegue, dando de caras com a morte antes de chegarem ao seu destino. 

"Terra Americana" conta a história de uma mãe, que ao ver a sua família chacinada por um dos barões da droga de Acapulco, foge com o seu filho de 8 anos, embarcando numa viagem tão difícil quanto perigosa. E é nessa viagem que vamos acompanhando o seu desespero e a sua coragem, comum aos outros companheiros de viagem que vai descobrindo, e que resulta apenas da vontade de sobreviver.

Este é sem dúvida um livro que não se deve deixar de ler. Muito provavelmente escrito para um público bem diferente dos migrantes, e por consequência não tão crú, não deixa de ser uma chamada de atenção para as ondas de migrantes, tanto nos EUA como na Europa, que fogem dos seus lares, pela simples vontade de sobreviver.

É um livro que suscitará muitas opiniões, por isso recomendo-o. É excelente para o debate! Mas é também um livro que nos acompanha muito depois da leitura terminar, nas pequenas coisas do dia a dia, e em situações tão simples como lavar os dentes ou ter um inalador para a asma e se conseguir respirar.

Adorei. O melhor deste ano tão estranho.

Opinião: "O Enigma do Quarto 622" de Joël Dicker

Foi o primeiro livro que li deste autor, e atenção, que valente estreia! Uma lufada de ar fresco na ronda dos policiais. Sim senhora, este homem sabe escreve, inventar, dar a volta, rodopiar e fazer o pino. Meu Deus! 

Não sabia o que ía encontrar, mas sabem, veio mesmo a calhar, pois sentia-me a precisar algo diferente... (Ambrósio?) 

E realmente, o Sr. Joël Dicker entregou-mo. 

É uma história com várias histórias que se entrelaçam entre si, e que até acho que devem ter um pouco de verdade, como todos os bons autores o fazem. Uma pessoa começa a ler, e de repente já passou não sei quanto tempo e já vamos nas cento e tal páginas. Fulminante, a escrita deste autor. 

O livro podia ser um pouco mais pequeno, porque andar para trás e para a frente com aquelas seiscentas e tal páginas, por muito entusiasmantes que sejam, é cansativo. Mas de cada vez que o abria e começava a ler, a minha mente voava para onde o autor me levasse e tudo o resto fugia, inclusive o tempo. 

Há quem diga que este é o pior livro deste autor, e se assim é, tenho mesmo de ler outro rapidamente. Dizem também que é uma homenagem ao seu editor, Bernard de Fallois, recentemente falecido, e na verdade, fiquei a desejar ter conhecido tal personagem, pois parece-me ter sido um homem fascinante. 

Para mim o verdadeiro enigma deste livro é que se assemelha a uma escada em caracol, que nos leva a diferentes pisos onde existe informação importantíssima sobre a própria história. E a cereja no topo do bolo é sem dúvida o último piso. Deslumbrem-se. E mais não digo. ;)

Opinião: "Os Filhos dos Nazis" de Tania Crasnianski

Peguei neste livro numa fase complicada. Não conseguia concentrar-me a ler nem a ver filmes, nem séries. Só os documentários me conseguiam prender um pouco a atenção. E mesmo assim... Como queria retomar o vício de ler, que sempre me ajudou, lembrei-me de que talvez uma biografia, ou algo assim, resultasse. Bem, ao que parece, resultou.

O título diz tudo. As fotos na capa e contra capa são avassaladoras. É quase uma afronta ver uma menina tão inocente de mão dada com Adolf Hitler. Se tivesse de lhe dar um título, chamar.lhe.ía O Bem e o Mal Mas na realidade eram apenas crianças, os filhos dos nazis. Muitos deles nem sequer tinham consciência de quem eram os seus pais, o que faziam e o que significavam. Viviam felizes, protegidos e eram amados. Quando a guerra terminou tudo mudou. E os jovens príncipes do nazismo "acordaram" para uma realidade bem diferente. O que fizeram com as suas vidas. Como lidaram com a herança que os seus pais lhes deixaram? 

São estas as perguntas que Tania Crasnianski tenta responder neste livro. Ela própria neta de um oficial alemão do II Reich, consegue compreender o que é viver com o peso de um passado familiar tão nefasto. 

No entanto, como se percebe ao longo da leitura, e no caso específico dos filhos de oito das personagens mais importantes do regime nazi, as reações são diversas. Houve quem renegasse o seu progenitor e até o próprio nome de família, como Brigitte, a filha de Rudolf Hoss, o comandante de Auschwitz, mas houve também quem sentisse orgulho do seu pai e até hoje defenda a causa nazi e apoio o movimento, como é o caso de Gudrun, a bonequinha de Henrich Himmler. 

Escrito num tom imparcial e distante, quase jornalístico, este livro é sem dúvida uma verdadeira preciosidade para qualquer biblioteca. Um relato quase inacreditável sobre como eram ser pais extremosos, estes homens que ficaram marcados na história como verdadeiras personificações do Mal.



Opinião: "O Comboio das Crianças" de Viola Ardone

"O Comboio das Crianças" aborda uma das grandes histórias esquecidas do pós Segunda Grande Guerra
. Numa altura em que o sul de Itália atravessava uma grande pobreza, foram levadas a cabo algumas iniciativas de adoção das crianças de Nápoles por famílias de classe médias-alta do norte de Itália.

Amerigo Sperenza é um menino de 7 anos cuja mãe toma a difícil decisão de o enviar num desses comboios com milhares de outras crianças como eles, para passarem uns tempos com famílias do norte dispostas a acolhê-los. Lá, como tantos outros, Amerigo conhece finalmente uma vida sem fome, sem frio e sem dificuldades. Através do seu olhar ficamos a conhecer a Itália do pós guerra, a Itália que renasce das cinzas com um novo fôlego. Conhecemos igualmente as diferenças entre o norte e sul, e a dor de abandonar tudo o que conhecemos para finalmente tentarmos encontrar o nosso destino. As escolhas que Amerigo faz acabam por lhe condicionar a vida, e isso é comprovado quando a narrativa salta umas décadas e vimo-lo a encontrar já adulto.

Muito longe de ser um relato lamechas, este é um livro essencialmente sobre a pobreza, o amor e as difíceis escolhas que por vezes temos de tomar. Uma leitura excecional com a qual aprendemos um pouco mais sobre uma época difícil onde cada escolha pode significar a vida ou a morte. Recomendo.